A auto-estima é fundamental para estarmos de bem com tudo a nossa volta, porém pode virar um problema quando esse gostar se torna adoração, como se a imagem refletida no espelho ficasse importante, valiosa, dourada demais. Saiba como não cair na tentação de “se achar”, como dizem os adolescentes
AUTO CONHECIMENTO

Amor próprio na dose certa

A auto-estima é a fonte de nossa segurança, conforto e confiança para encarar o que a vida apresenta. É um estado interno que nos diz “vá em frente, você consegue!”. Por isso, está intimamente ligada ao sucesso: afetivo, profissional, social e até esportivo. A única questão é que, às vezes, a auto-imagem infla um pouco além da conta e, sem querer, começa a atrapalhar, mais do que ajudar, as novas conquistas. Em geral, acontece quando sentimos que o mundo gira a nossa volta. Aí, o amor-próprio se transforma numa armadilha que fácil, fácil nos faz cair no narcisismo. O termo, criado por Freud (1856-1939) com base no mito grego de Narciso (leia boxe nas próximas páginas), ficou popularmente associado às pessoas que investem muita energia (pensamentos, ações) nelas mesmas. Alguns exemplos bastante típicos estão no meio artístico e nas academias – de ginástica, de letras, de ciências... Mas, na verdade, todos nós, em algum momento, em algum grau, escorregamos no mito de Narciso e nos lambuzamos dele. É um desvio tão humano quanto errar. “Basta pensar em alguma experiência em que você tenha se sentido dominando a situação e feito algo de errado por estar excessivamente confiante em si e pouco aberto a ouvir o que outros tinham a dizer”, esclarece o analista junguiano Rodney Galan Taboada, de São Paulo. Um exemplo é a reunião de família em que você sai brigado com todo mundo, achando que eles só falam bobagem quando, de fato, você era o radical da história.

Ninguém é o centro do universo
Em geral, o exagero da auto-estima pode provocar arrogância. Na maior parte das vezes, no entanto, esse lapso é inconsciente. Detectar o momento em que se escorrega no narcisismo não é fácil para ninguém. O melhor é ficar atento. A diferença entre uma pessoa com auto-estima equilibrada e uma narcisista é a disposição para se envolver com as histórias, os pensamentos e os sentimentos do outro – colega de trabalho, filho, parceiro amoroso, vizinho ou amigo. Quanto maior for esse envolvimento, mais saudáveis tendem a ser as relações. Ter em mente alguns conceitos também ajuda na hora de entender o próprio comportamento. “A auto-estima pode ser definida como uma valorização de si mesmo”, diz o professor Álvaro Tamayo, do Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília. É acreditar no próprio potencial sem ser necessário parecer melhor ou mais bonito que os demais. “Ao contrário, quando uma pessoa está verdadeiramente bem consigo mesma, consegue ser ainda mais amorosa, prestativa e solidária”, complementa o psicólogo Antonio Carlos Amador Pereira, professor da Pontifícia Universidade Católica, de São Paulo.

Eu me amo tanto!
Na definição do que é narcisismo, há uma atitude que faz toda a diferença. “Trata-se da valorização exclusiva de si mesmo. E coloca exclusividade nisso. A pessoa é apaixonada pelo próprio corpo ou pelas próprias idéias (o chamado narcisismo intelectual)”, descreve Amador Pereira. “Como diz Caetano Veloso, ‘Narciso acha feio o que não é espelho’”, acrescenta. Flagrar-se nessa situação é triste, mas também uma oportunidade de crescimento, como reconhece o ator Sílvio Ferreira, 38 anos. Sua egotrip aconteceu durante a temporada de uma peça de teatro. Elogiado pelo público e pela crítica, o ator entrou numa espiral de vaidade. “Quando todo mundo te elogia, você começa a inflar, a sentir que é o melhor e esquece quem está em volta. No palco, corremos o risco de atropelar e encobrir o outro ator em cena”, diz Sílvio, que só se deu conta de que tinha passado do limite quando pessoas significativas disseram que ele estava demais – no mau sentido. Voltar para o eixo não foi fácil. Afinal, era como romper com um ídolo interno. “Devo isso a muita terapia, à natação e ao término da peça, que passou por uma fase ruim, me mostrando que a fama é passageira. De tudo isso, o que ficou foi o resgate da essência do teatro, que é baseado na comunhão, não na autopromoção”, diz o ator.

Além de si mesmo
A história de Sílvio não é isolada. O psiquiatra Alexander Lowen, pioneiro da análise bioenergética, escreve em seu livro Narcisismo (ed. Cultrix) que a promessa de poder, amor, riqueza e posição social é uma forma de sedução que age o tempo todo em nossa cultura, favorecendo o desenvolvimento da autocontemplação. “Vivemos também em uma sociedade consumista, que em alguns aspectos está voltada para a idolatria de si próprio. Para não cair nessa armadilha, precisamos olhar para fora, para o mundo, para as pessoas”, alerta Amador Pereira. Em síntese, lembra daquela música do Ultraje a Rigor, “Eu Me Amo”? Continua valendo, mas preste atenção na última estrofe. Diz assim: “Completamente eu vou poder me entregar/ É bem melhor você sabendo se amar”. Moral da história: gostar da gente faz bem, desde que isso não nos isole e nos deixe livres para viver bem todas as nossas relações.


Cinco pontos a seu favor
O fascínio pela própria imagem


TEXTO: KÁTIA STRINGUETO

Maio 2003

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