
Estudar o perdão e seus efeitos
no organismo é o trabalho do psicólogo americano
Fred Luskin, 48 anos. Na última década, ele
fez inúmeras pesquisas sobre as emoções que envolvem o ato de perdoar,
tão necessário para deixar o coração
leve e a alma em paz. |
AUTO
CONHECIMENTO A força
do perdão
Perdoar é,
por definição, desculpar. Ah, se fosse só
isso, seria muito fácil! Existem muitos e intrincados
sentimentos envolvidos nesse ato, e é esse o principal
objeto de estudo do psicólogo americano Fred Luskin,
doutor em aconselhamento clínico pela Universidade de
Stanford, nos Estados Unidos. Mais que um teórico, ele
aprendeu na prática essa boa lição. Uma
briga com um grande amigo, quase irmão, o fez conhecer
o que é mágoa. “Ele nem sequer me convidou
para seu casamento”, conta Luskin. Anos depois, percebeu
que, por causa desse desentendimento com o amigo, estava colocando
uma dose de amargura em todas as suas relações.
Perdoar não foi fácil, mas serviu como laboratório
para que a teoria virasse prática. Como gosta de dizer,
o perdão se transformou em seu trabalho de vida. E é
com orgulho do pai que vê o filho dar os primeiros passos
que Luskin fala sobre o Projeto Perdão, estudo que começou
em 1996, em parceria com a Universidade de Stanford, onde leciona.
Durante dois anos, ele analisou os sentimentos de 200 voluntários,
dispostos a compreender como apaziguar a raiva e diluir a mágoa.
O resultado do trabalho foi publicado no livro O Poder do Perdão
(ed. Novo Paradigma). Nele, Luskin mostra como o rancor pode
desaparecer e como o perdão ajuda o corpo a florescer:
diminui efeitos negativos do estresse, melhora relacionamentos
e traz paz interior. A seguir, ele nos dá as pistas dessa
jornada.
Bons Fluidos – O que é essen-cialmente
perdoar?
Fred Luskin – É a habilidade de promover a paz
interior quando as coisas em sua vida não estão
caminhando da forma como você gostaria. Ou a habilidade
de reagir e trazer para si o que você considera certo:
amor, honestidade, atenção, saúde. E isso
você consegue quando aprende a não alimentar raiva
e rancor. Para praticar no dia-a-dia, é preciso ter atitudes
como não levar tudo para o lado pessoal, parar de culpar
o outro pelo que está sentindo e sair do papel de vítima.
BF – Por que perdoar ajuda a melhorar a saúde?
FL – Em minha pesquisa, quando conversava com os voluntários
sobre o que lhes causou a mágoa, os sinais que o corpo
dava mostravam o quanto aquele sentimento fazia mal. O coração
ficava acelerado, as mãos, frias, começavam a
suar e a respiração se tornava rápida.
Isso acontece porque, toda vez que você pensa no que o
magoou, seu corpo libera substâncias tóxicas, que
vão minando as defesas do organismo, abrindo caminho
para todo tipo de doença. Além disso, guardar
ressentimentos cria uma espécie de paralisia, uma sensação
de estar sem saída, inábil para lidar com seus
problemas. O que estressa ainda mais. Quando você perdoa,
pára de alimentar todos esses efeitos nocivos.
BF – Quem tem mais facilidade de perdoar: homens
ou mulheres?
FL – Quando colocamos anúncios para chamar
voluntários para participar das pesquisas ou quando fazemos
workshops, a procura feminina é maior. Talvez isso aconteça
porque as mulheres estão mais abertas a lidar com suas
emoções. Desde pequenas estão mais acostumadas
a verbalizar o que sentem. No entanto, nossos dados nos mostram
que quase não existe diferença, entre os sexos,
na capacidade de perdoar ou em quão complacentes eles
podem ser. A mesma relação existe com a raiva.
Homens e mulheres são capazes de sentir raiva um do outro
na mesma intensidade.
BF – O tipo de personalidade influencia a capacidade
de perdoar?
FL – Sim, mas qualquer pessoa pode aprender a
perdoar. As que são duras consigo mesmas ou muito egoístas
têm mais dificuldade de liberar mágoas. Isso acontece
porque elas se colocam como o centro do Universo e tendem a
esquecer que coisas dolorosas acontecem com todo mundo e são
superáveis.
BF – E o que isso causa?
FL – Quando você não perdoa, é
como se estivesse se envenenando. São muitos sentimentos
misturados, como mágoa, rancor, raiva, o oposto à
paz. Na rotina, isso se traduz em nervosismo, melancolia e amargura.
Algumas pessoas perdem até a capacidade de confiar em
si mesmas e nos outros. E há aquelas que conseguem ter
todos esses efeitos negativos, bloqueando as sensações
boas e dificultando o perdão.
BF – É possível perdoar qualquer
tipo de agressão?
FL – Já encontrei pessoas que foram capazes
de perdoar o assassinato de um filho ou o roubo de todo seu
patrimônio. Ao mesmo tempo, deparei com quem não
consegue perdoar coisas quase insignificantes, como um atraso
ou a bronca de um chefe. É uma capacidade individual,
mas é claro que é preciso maior esforço
emocional e mais tempo quanto pior for a dor.
BF – Quais as situações mais difíceis
de perdoar?
FL – Traição e abuso de parentes,
sexual ou de violência, como pais que espancam os filhos.
BF – Crer em Deus ou ter uma prática espiritual
ajuda nesse processo?
FL – Se você, diariamente, orar, meditar, refletir,
conversar ou seguir os preceitos de algum líder espiritual,
isso com certeza ajuda. Apenas ter uma religião, mas
não acreditar com fé, ou ir a uma cerimônia
religiosa não costuma ser suficiente para gerar mudanças
internas. Constatamos que pessoas religiosas têm mais
facilidade para perdoar porque se preocupam em agir de acordo
com suas crenças, principalmente as que pregam a paz
e a bondade. Até mesmo acreditar que algo aconteceu porque,
de alguma forma, esse Deus quer mostrar um caminho é
uma forma de tornar o perdão mais fácil. Isso
só não acontece quando você acredita que
Deus quer puni-lo. Esse pensamento afasta a possibilidade de
perdoar.
BF – Algumas pessoas acreditam que o câncer
é resultado da mágoa. Isso é possível?
FL – Eu não acredito que a tristeza tenha
força para causar câncer. Mas em algumas circunstâncias
pode fazer toda a diferença. Isso acontece porque a inabilidade
de curar uma ferida emocional a mantém viva, o que tem
efeito negativo no sistema imunológico ao longo dos anos.
A maneira como você lida com seus sentimentos (sejam quais
forem) pode curar ou machucar cada vez mais.
BF – Quem perdoa vive melhor?
FL – Dou cursos e palestras de como perdoar por
todo país. Percebo que o perdão ajuda as pessoas
a se sentirem melhores emocional e fisicamente. Elas se aproximam
e buscam mais apoio na família e nos amigos. Acredito
que, ao mostrar os caminhos que levam ao perdão, a superação
das dificuldades comuns do dia-a-dia são mais fáceis,
ficam mais abertas para os outros e para novas experiências.
Num dos estudos que fiz na Universidade de Stanford, com jovens
que tinham problemas relacionados a algum tipo de mágoa,
após aprenderem a perdoar (veja quadro ao lado), 70%
deles afirmaram que se libertaram desse sentimento e 20% tiveram
uma redução da raiva.
Sem mágoa no coração
O doutor Fred Luskin indica atitudes para exercitar o perdão.
Mesmo que você não consiga resultados imediatos,
não deixe de tentar.
• Comprometa-se a fazer o que te faz sentir bem.
Se caminhar melhora seu humor, saia para andar todos os dias.
• Perdão não quer dizer reconciliar-se com
quem o magoou. Perdoar é ter paz interior. Como fazer
isso? Não supervalorize sua mágoa. E comece a
perceber o alto custo emocional (e físico) que você
tem ao carregá-la no peito.
• Exercite o perdão com as pequenas coisas. Quando
estiver no trânsito e levar uma fechada, tente não
sentir raiva. Ao discutir com alguém, em vez de ficar
louco da vida, pense também nas razões pelas quais
vocês brigaram. Em situações como essas,
respire, reflita e evite ser dominado por emoções
ruins. Isso ajuda a exercitar o perdão.
• Para diminuir o ressentimento e a tristeza, procure
uma técnica de combate à tensão: ginástica,
ioga, caminhada, passeios ao ar livre.
• Quando alguém chateá-lo ou você
lembrar de algo que te magoou, preste atenção
nos sinais de seu corpo. Se o coração bater acelerado
e as mãos ficarem frias, faça duas respirações
profundas, concentrando o ar no abdômen. Depois lembre-se
de algo positivo e bom em sua vida.
• Tenha em mente que uma vida bem vivida, com leveza e
alegria, pode ser o melhor prêmio. Em vez de focar sua
atenção nas feridas, e dar força a elas,
aprenda a olhar as coisas boas a seu redor.
TEXTO: ANA HOLANDA
Maio 2003
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