
E pode haver algo mais adorável
e excitante do que descobrir que se gosta da mesma comida? |
COLUNISTAS
A paixão emagrece, o amor engorda
No início,
a paixão emagrece. Ainda que o exercício seja
só desfolhar o malmequer, ou apertar o celular com força,
o coração dispara tanto que qualquer coisinha
vale por dez aeróbicas. E a verdade é que paixão
recém-nascida é melhor que qualquer comida. Seu
apetite só pode ser saciado por coisas que não
engordam: pele roçando na pele, mão esbarrando
na mão, olhares que dizem tudo, beijos suspensos nos
lábios. Muitas dúvidas – será que
é paixão correspondida? Estará mesmo livre
aquele coração?
Beijos em vez de dieta
O sono diminui, a adrenalina corre, proporcionando reflexos
rápidos, os olhos brilham. Dançar, cantar, dar
risada, tudo o que é bom fica fácil. E o corpinho?
Afina. Cada suspiro consome 100 calorias. Até que, de
repente, o desejo se realiza. Bem-me-quer, bem-me-quer! As bocas
recheadas de beijos, a vida, uma roda-gigante, comer para que
se o bom é amar, amar, amar? Noites movimentadas e dias
à espera das noites: desnecessário também
dormir. O sonho já virou vida, e a vida virou estar junto.
O resto se ajeita entre um encontro e outro, um telefonema e
outro. Se não me engano foi Freud quem disse: paixão
são dois náufragos agarrados na mesma tábua.
Magros. Aí, passado algum tempo, a paixão vai
lentamente se transformando em amor. Nossos náufragos
chegaram à ilha e resolveram cuidar juntos da vida, construir
uma cabana e arranjar coisas para... comer. Afinal, eles merecem!
Conquistaram o coração um do outro, isso não
acontece todo dia, e tome celebração. É
café na cama aqui, almoço ali, ceia acolá,
uma viagem de férias cheia de comidas típicas,
bebidas deliciosas, sobremesas fartas, e o prazer da intimidade
matinal se prolonga até mais tarde, abrindo o apetite
para novidades. Que a novidade já não é
o outro, mas tudo o que se faz junto, tudo do que se gosta,
tudo o que se adora. E pode haver algo mais adorável,
excitante e gratificante do que descobrir que se gosta da mesma
comida?
O amor come, o amor cozinha. O amor chama o amor de minha doçura
e dá chocolates caros de presente. Compra vinhos, queijos
e outras delícias. Comemora na mesa os sucessos da cama
e o passar dos dias, dos meses, do ano – já um
ano? Então, festa! Alegria, alegria! E assim o amor engorda.
O amor que engorda põe um olho no espelho e o outro no
outro, para ver se engordaram os dois. Bingo. Bochechinhas,
pneuzinhos, a cintura apertada pedindo discretamente para desabotoar
o jeans... E aí, de duas, uma: ou vão ambos malhar
na academia ou começam a chegar com umas roupinhas novas,
larguinhas, mais confortáveis para ficar em casa, grudadinhos,
vendo filmes e comendo pipoca.
Os da academia renovam a vida, se animam para um spa, resolvem
caminhar de manhã e pedalar aos domingos. Conhecem pessoas
novas e de repente até se apaixonam de novo um pelo outro.
Ou pelos outros. Os das roupinhas largas, cada vez mais largas,
em breve vão precisar de afrodisíacos. Ostras,
lagostas, caviar, fígado, rins, testículos e miolos
têm reputação de dar muita energia. Temperos
como pimenta, canela, noz-moscada, cravo, açafrão,
baunilha e gengibre estimulam a circulação, portanto
podem auxiliar o sangue a chegar mais abundantemente às
zonas prazerosas. Champanhe tem fama de liberar a libido mais
do que qualquer outro vinho, e alguns alimentos são tidos
como excitantes: aspargo, aipo e alho-poró, por causa
da forma, e faisão e pombo, pelo arroubo amoroso. Um
menu afrodisíaco citado pelo Larousse Gastronomique,
a quem interessar possa: sopa de tartaruga com âmbar-gris,
linguado à moda normanda, filé de rena com creme
de leite, pombo jovem assado, aspargos ao molho holandês,
salada de agrião, pudim de tutano, vinhos do Porto e
Bordeaux e, finalmente, café. Se funciona, não
se sabe, mas que engorda...
A jornalista e pesquisadora Sonia
Hirsch é autora de livros sobre culinária natural, alimentação
e saúde.
Maio 2003
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