
Sabe quando a gente está pensando em um amigo e ele,
milagrosamente, aparece? Segundo físicos e terapeutas,
isso não é acaso, mas um arranjo do Universo
chamado de sincronicidade. A repórter Monica Manir
investigou como esses fatos sem conexão aparente
provocam grandes mudanças internas e fazem com que
a vida flua pelo caminho mais fácil. |
AUTO-CONHECIMENTO
Mais que simples acasos
É só falar em coincidência
que lembro de uma imagem do filme Asas do Desejo, do alemão
Win Wenders. Anjos que habitam bi-bliotecas dão uma mãozinha
e colocam à frente das pessoas o livro que precisam ler.
Em Cidade dos Anjos, refilmagem hollywoodiana de Asas do Desejo,
o anjo enigmático vivido por Nicolas Cage faz o mesmo:
entre zilhões de livros perdidos em uma estante, ele
empurra sutilmente um deles na direção de um leitor
que está ávido por aquele assunto. Esse fenômeno
de encontrar do nada uma obra que me interessa já aconteceu
inúmeras vezes e não foi diferente agora. Bastou
saber que escreveria sobre sincronicidade e dois livros básicos
(e bárbaros) sobre o tema caíram em meu colo –
sem que eu pedisse nenhuma ajuda. Histórias emocionantes
de coincidências, a maioria envolvendo encontros amorosos,
também pipocaram a minha volta. E até estudiosos
do assunto, vindos das áreas mais diferentes, chegaram
até mim por força do “acaso”.
Colecionador de coincidências
O engenheiro Alberto Setzer, pesquisador do Instituto Nacional
de Pesquisas Espaciais, em São José dos Campos,
SP, foi um deles. Alberto coleciona histórias de sincronicidade
há 27 anos. São recortes de jornal, trechos de
livros, descobertas científicas, relatos de amigos, narrações
de desconhecidos e vivências pessoais marcadas pelo inusitado.
“Meu interesse não é por coincidências
do dia-a-dia, mas por aquelas que escapam às estatísticas
que medem se um evento é mesmo uma sincronicidade ou
não”, explica.
Quebra-cabeça gigante
Ele relaciona os eventos sincronísticos – nome
científico do acaso – a um quebra-cabeça
gigantesco nas relações humanas, em que nem sempre
as coisas se encaixam, já que fogem do racional. Voltando
aos livros que caem do céu, ele lembra o dia em que encontrou
uma obra única sobre o uso do fogo, que procurava há
tempos para uma pesquisa, em meio a prateleiras empoeiradas
de um sebo do centro de São Paulo. “Nunca passei
por aquele lugar antes, mas fui direto ao ponto, como se o livro
estivesse a minha espera. Como pode?”
Podendo, diria Carl Jung, psiquiatra suíço que,
no começo do século 20, mergulhou fundo na questão
do inconsciente, assumindo que coincidências existem.
Mais que isso: algumas são recheadas de significado,
já que ligam uma experiência interior a uma exterior.
A essas Jung deu o nome de sincronicidades e atribuiu a elas
o poder de transformar comportamentos quando recebem o devido
grau de importância. “São aspectos que fazem
parte de uma realidade desconhecida e que, por isso mesmo, costumam
ganhar uma cor mágica para quem os percebe”, afirma
a psicoterapeuta Maria Helena Guerra, coordenadora do curso
de psicologia junguiana do Instituto Sedes Sapientiae, em São
Paulo.
Na psicologia e na física
Jung perseguiu a sincronicidade desde a década de 1920.
Na época, foi criticado pela comunidade científica
porque voltou sua atenção para métodos
que encaram a vida em termos não exatamente causais,
entre eles a astrologia, o tarô e o I Ching (veja quadro
nas próximas páginas). Intuindo que a física
também poderia dar alicerce a sua teoria, Jung se aproximou
da mecânica quântica, no que foi prontamente correspondido.
Durante anos trocou cartas com o físico austríaco
Wolfgang Pauli (1900-1958) e, juntos, escreveram um pequeno
livro, em que questionavam as leis clássicas da física.
O físico João Bernardes da Rocha Filho, professor
da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande
do Sul e autor do livro Física e Psicologia (ed. EDIPUCRS),
lembra que a física continuou firme nas pesquisas em
busca da natureza desses fenômenos. “Há quem
diga que reflitam a existência de um universo onde tudo
está interligado”, diz ele.
Se existe uma ligação íntima e atemporal
entre eu, você e alguém na China que nunca vimos
antes, por que a surpresa diante da sincronicidade? Para Eloisa
Penna, analista junguiana e professora de psicologia analítica
da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, a maioria de nós está presa à noção
tradicional de causa e efeito, que não leva em conta
esse conceito de unidade. “Sempre buscamos uma explicação
isolada para qualquer evento em nossa vida e, quando algo foge
ao entendimento, é visto como incrível ou surreal”,
compara.
Fora do controle
Pode-se entender a coincidência como um acontecimento
mágico, exclusivo dos privilegiados. No entanto, segundo
os especialistas, a sincronicidade é democrática,
ou seja, não escolhe sexo, cor, religião, nacionalidade,
estado civil ou número de vezes em que se visitou o divã.
“Ao reconhecer que somos pessoas como outras quaisquer,
absorvemos o que há de melhor em uma coincidência
única”, afirma Maria Helena Guerra. Vale sim valorizar
o fato de sermos todos especiais, dignos de acontecimentos que
escapam a nosso controle e que vêm para o bem, trazem
mudança ou chamam a atenção para algo importante.
Esperar o inesperado também vale. No livro Sincronicidade,
ou Por que Nada É por Acaso (ed. Nova Era) – um
daqueles que vieram até mim no começo da reportagem
–, o psicoterapeuta e teólogo americano Robert
H. Hopcke propõe uma atitude de abertura para colocar
de lado nossas agendas e considerar que nossas histórias
incluem fatos que não podemos prever. Ele diz o seguinte:
“Certos eventos às vezes mostram que nossa vida
segue um caminho diverso do que imaginávamos no início
e que apenas nossa disposição para rever o destino
permite usar a coincidência a nosso favor”.
A seguir, três histórias que mudaram por
causa da sincronicidade:
Unidos pelo acaso
Separada e com uma filha pequena, a jornalista paulista Isabel
Silveira, 39 anos, relutava em procurar um novo parceiro. “Não
queria alimentar a ansiedade de conhecer a pessoa ideal”,
revela. Até que, conversando com a manicure, soube que
haveria uma missa dedicada a santo Antônio na igreja vizinha
a sua casa. Era Dia dos Namorados, e Isabel, que nunca fora
devota de santo algum, decidiu rezar para o protetor dos enamorados.
“Pedi para conhecer alguém especial”, confessa.
Uma semana depois, deu de cara com o americano George Howard,
produtor de cinema, na casa do pai de uma amiga. Ele ia passar
30 dias de férias no Brasil. Isso já faz sete
meses. Isabel e George acabaram se cruzando outras vezes sem
planejamento, se apaixonaram e hoje se dizem amantes eternos.
Onde está a grande coincidência? “George
desembarcou no Brasil no dia 12 de junho, mais ou menos na mesma
hora em que eu rezava na igreja”, lembra Isabel.
Conexão eterna
A professora de dança Ana Maria Monzillo, 44 anos, de
São Paulo, perdeu o pé quando se viu diante de
uma coincidência que mexeu com uma relação
do passado. Durante um curso de expressão, que envolvia
montar uma cena de teatro, Ana interpretava uma mãe atormentada
com a morte da filha. Achou que o terço herdado da própria
mãe, falecida havia dois anos, seria perfeito para compor
o personagem, que, como os demais, não tinha nome definido.
Num certo momento do ensaio, porém, a moça com
quem Ana contracenava a chamou de Zefa. “Quando ouvi o
nome de minha mãe dito por alguém que mal me conhecia,
levei um susto!”, conta.
Passado o baque, ela não quis trancar a emoção.
Em vez disso, levou o tema para a terapia e viu que ainda precisava
trabalhar a perda dessa pessoa tão querida. “Aquela
situação não programada serviu como um
curativo para uma ferida do passado, que hoje eu aceito e compreendo,
mesmo sem entender plenamente a lógica do que aconteceu.”
Emprego certo
Foi sem querer que a artesã paulista Rita Novellino,
44 anos, conseguiu uma entrevista de trabalho para o marido,
Rafaelle, então desempregado. Em uma aula semanal de
culinária, Rita comentou com uma colega que precisava
economizar, já que a família vivia com uma renda
a menos. “Ela perguntou qual era a área em que
meu marido atuava e ficamos surpresas ao descobrir que o marido
dela precisava de um funcionário com o currículo
de Rafaelle”, diz a artesã. Não demorou
para que começassem a trabalhar juntos. O fato só
confirmou o que Rita sempre disse saber. “Há uma
ligação entre as pessoas e basta acionar o botão
certo para estabelecer esse contato.”
De antenas ligadas
Dizem os matemáticos que as sincronicidades acontecem
uma em cada esquina. Mas às vezes parece que ela só
passa no quarteirão de baixo... A sugestão para
se aproximar das coincidências é, primeiro, assumir
que existem. Depois, vale mexer em posturas internas e externas,
que também podem ajudar a percebê-las.
• Treine o cérebro para novos tipos de
percepção – Como explica a neurologista
Denise Menezes, de São Paulo, o órgão pode
ser ensinado a perceber além do aspecto material. Para
isso, sugere a meditação ou outra prática
que apure a concentração.
• Acorde para os sonhos – “Eles
são portas para o inconsciente e não raro viram
personagens da sincronicidade”, afirma Doucy Douek, psicóloga,
de São Paulo. É famoso o caso relatado por Jung
da paciente que sonhou com um escaravelho. No instante em que
lhe contava o sonho, um besouro igual começou a esvoaçar
junto à vidraça do consultório. “A
coincidência fez com que a paciente aprofundasse a questão
que a atormen- tava”, diz Doucy.
• Separe o joio do trigo – Nem
tudo é sincronicidade, porque nem todas as coincidências
têm significado relacionado a uma angústia ou desejo.
“Ver sinais em qualquer situação extraordinária
pode diminuir o peso do que realmente faz diferença”,
afirma a psicoterapeuta Maria Helena Guerra.
• Controle a euforia – Para a neurologista
Denise Menezes, a sincronicidade deve trazer serenidade, e não
barulho interno.
 |
Para que
a sincro nicidade aconteça com você, basta
estar vivo |
 |
Moedas no ar
A primeira vez em que Jung falou abertamente sobre a sincronicidade
foi em 1930, no funeral do sinólogo Richard Wilhelm.
Sinólogo é aquele que se ocupa da escrita
e dos costumes chineses. No caso de Wilhelm, sua ocupação
foi traduzir o I Ching – O Livro das Mutações
do chinês para o alemão. Oráculo milenar
respeitadíssimo, o I Ching dá respostas práticas
a perguntas objetivas, destacando a importância de
aproveitar as oportunidades do momento. Para consultá-lo,
é necessário criar um hexagrama – símbolo
composto de seis linhas. Elas nascem do lançamento
de três moedas, que ao acaso caem do lado cara ou
coroa. Anotam-se quantas são cara, quantas são
coroa, e desenha-se um traço contínuo ou interrompido.
Depois confirma-se no livro o significado do hexagrama.
Jung viu no I Ching um claro exemplo de sincronicidade,
em que a coincidência da pergunta com a resposta mostra
uma ligação entre um evento objetivo (o texto
do oráculo) e um subjetivo (a necessidade de a pessoa
pedir uma luz para uma angústia interna). “Nenhum
dos dois exerce uma influência lógica sobre
o outro e, no entanto, o significado está ali”,
diz Roberto Otsu, especialista em I Ching, de São
Paulo. |
Texto: Monica Manir
Ilustrações: Nik
Março 2004
VEJA
MAIS SOBRE ESTE ASSUNTO
|