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ESPIRITUALIDADE
7 janelas para um futuro melhor
Nestes tempos de incerteza, entre
tantas notícias sobre desigualdade,
violência e terrorismo, experimentamos
a todo momento a sensação
desconfortável de que tudo está por um fio. Mas
estudos sobre tendências
de comportamento mostram que, entre
as nuvens negras, são claros os sinais
de mudanças positivas. Boas notícias!
Nossos pais e avós dizem que antigamente a vida era mais
fácil e tranqüila. Sim, com certeza, porque tinham
menos informação sobre o mundo. As notícias,
especialmente as ruins, que nos chegam em grande quantidade
– seja uma bomba em Madri, seja um atentado na Palestina
–, são tão vivas e urgentes que geram instabilidade
em nosso cotidiano por mais longe que estejam os focos de conflito.
Com a visão embaçada pelo pessimismo, nem percebemos
as ações solidárias, de bondade e de cuidado.
Não enxergamos as sementes que germinam por todos os
lados e estão trazendo os dias em que tolerância,
compaixão e solidariedade falarão mais alto. Mesmo
que os conflitos não cessem, esse não é
um sonho distante, mas realidade: é o que apontam os
especialistas em detectar tendências de comportamento
para os próximos anos.
Movimento espiral
Esse futuro não será o dos filmes e livros de
ficção científica, mas o dia de amanhã.
“Mais do que em qualquer outra época da história,
somos co-criadores das melhorias nas relações,
no trabalho, na preservação da natureza, na saúde”,
diz Rosa Alegria, diretora de pesquisas do Núcleo de
Estudos do Futuro da PUC-SP. “Cada gesto, ação
ou pensamento é capaz de influenciar e contribuir para
o futuro que aspiramos.”
Segundo a especialista, a evolução da humanidade
pode ser representada por uma espiral ascendente (como a forma
de uma mola). Nesse movimento circular, para cada onda de avanços,
segue-se a retomada de antigos valores e comportamentos. Isso
explica, por exemplo, o fato de as mulheres a partir dos 30
anos estarem revalorizando a maternidade e a família,
segundo aponta uma pesquisa da agência australiana Heartbeat.
Ou ainda justifica por que filhos de pais liberais tendem a
ser conservadores. “Não se trata de voltar ao passado,
pois essa mesma retomada traz valores que representam avanços”,
diz Evandro Vieira Ouriques, diretor do Centro de Estudos de
Comunicação e Consciência da Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Bons Fluidos pediu a especialistas
de diversas áreas prognósticos sobre os dias que
estão chegando. E eles trazem boas notícias. Confira.
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Relacionamentos |
Qualquer maneira de amor valerá
Relações mais saudáveis, com mais liberdade
e menos preconceito, darão o tom nos próximos
anos. “Os relacionamentos afetivos tendem a ser mais verdadeiros
e igualitários”, diz a antropóloga Mirian
Goldenberg, professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro,
que atualmente faz uma pesquisa com cerca de 1,3 mil homens
e mulheres sobre mudanças nos papéis conjugais
e sexuais. Segundo ela, os envolvimentos serão mais satisfatórios,
apesar de tenderem a durar menos. “As pessoas se unirão
pela vontade de viver verdadeiramente a relação
e não mais tão influenciadas por interesses, como
necessidade de segurança, procriação e
medo do preconceito social”, diz Mirian.
No convívio
Negociação, criatividade e diálogo serão
palavras de ordem na vida a dois, continua a antropóloga.
Inventaremos e reinventaremos novas formas de convívio,
em que mais gente escolherá não casar ou mesmo
morar em casas separadas. Ficar sozinho será visto pela
sociedade como uma decisão pessoal, e não uma
contingência, especialmente para as mulheres. “Há
também a tendência de elas voltarem a optar por
cuidar da casa e dos filhos em vez de trabalhar – não
mais por obrigação, mas por escolha”, ressalta
Mirian. Uma visão social menos preconceituosa também
se estenderá à terceira idade. “Os idosos
viverão mais sua sexualidade”, completa ela.
Respeito em alta
Os homossexuais também terão espaço garantido.
A exemplo do que já acontece na Dinamarca, Noruega, Suécia,
França, Portugal e Alemanha, cada vez mais países
permitirão a união civil entre parceiros do mesmo
sexo, o que garante direitos em relação a heranças,
patrimônio, previdência social e adoção.
“A cidade de Buenos Aires e alguns cartórios do
Rio Grande do Sul já facilitam esses contratos”,
aponta Cláudia Garcia, membro da diretoria executiva
da Associação do Orgulho de Gays, Lésbicas,
Bissexuais e Transgêneros de São Paulo. “Continuará
havendo discriminação e homofobia, mas em grau
bem menor”, acredita ela.
Outra perspectiva promissora é o apoio oferecido pelos
grupos de militância e organizações aos
jovens homossexuais, para que possam enfrentar as pressões
na família, na escola, no trabalho. “A tendência
é que os gays sejam vistos como símbolo de um
estilo de vida mais livre, moderno e criativo e suas relações
consideradas modelos de igualdade”, completa a antropóloga
Mirian Goldenberg.
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Trabalho |
Menos empregos e mais trabalho
Equilibrando trabalho com qualidade de vida, obrigações
com liberdade pessoal, menos empregos fixos com mais contratos
temporários: assim viveremos o cotidiano profissional
nos próximos anos. Uma pesquisa contínua conduzida
pela sede da Heartbeat, na Austrália, com jovens na casa
dos 20 anos confirma essa aspiração em exercer
a profissão com mais liberdade pessoal.
Independência vale ouro
“A evolução dos recursos da internet e da
telefonia, que hoje possibilitam as videoconferências,
dará cada vez mais suporte ao trabalho independente,
sem vínculos e a distância”, diz Zilda Knoploch,
presidente da Enfoque Pesquisa de Marketing e diretora da Heartbeat
Brasil, empresas que investigam tendências de comportamento.
“O desafio será equilibrar as demandas profissionais
e pessoais, pois há o risco de, com a tecnologia, ficar-se
plugado o tempo todo”, diz o economista Marcio Pochmann,
secretário do trabalho do município de São
Paulo.
A instabilidade e a complexidade crescentes do mercado exigirão
das empresas ainda mais agilidade. “Qualquer ação
deverá ser muito rápida, e as empresas precisarão
diminuir de tamanho. De navios, se tornarão barquinhos,
para enfrentar as mudanças de maré”, afirma
Eline Kullock, presidente do Grupo Foco de Recursos Humanos,
de São Paulo. Isso trará modificações
na empregabilidade e estabilidade. “Haverá menos
empregos no sentido tradicional. Em compensação,
a demanda de serviços terceirizados só aumentará”,
salienta a especialista.
Nessa dinâmica, seremos pequenas células que se
reúnem para executar projetos e depois se separam, segundo
as necessidades do momento. O autoconhecimento e a noção
das próprias qualidades serão fundamentais para
que cada um possa vender seu peixe. “Haverá boas
perspectivas de ganhos para os autônomos, mas será
necessário aperfeiçoar os mecanismos de proteção
social, para compensar as instabilidades do mercado”,
diz Marcio.
Chefes menos autoritários
A dinâmica também modificará – para
melhor – as relações entre chefes e empregados.
“O respeito mútuo será fundamental, pois
haverá mais margem de escolha: daremos prioridade à
formação de parcerias com quem nos respeita e,
por outro lado, recusaremos as que não tenham essa qualidade”,
diz a especialista. “Será difícil alguém
ser autoritário e pisar em seus subordinados, como é
comum hoje, pois correrá o risco de perder bons parceiros.”
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Saúde |
Novos tratamentos e ênfase na prevenção
Novos tratamentos e ênfase na prevenção
O futuro é promissor na área da saúde.
Descobertas de novos tratamentos, medicamentos e vacinas, surgimento
de políticas e campanhas públicas de prevenção
e até a sonhada cura de males como a aids e o câncer
estão previstos para os próximos anos. “A
cada dia há novas descobertas de fatores relacionados
ao surgimento das doenças, o que favorece a prevenção
e a adoção de hábitos saudáveis,
que terão influência direta na diminuição
dos casos”, diz o pneumologista Daniel Deheinzelin, diretor
clínico do Hospital do Câncer de São Paulo
e pesquisador do Centro de Excelência em Pesquisa, Inovação
e Difusão, órgão de ponta em pesquisas
médicas.
Antes de adoecer
Com o aperfeiçoamento dos estudos genéticos, os
diagnósticos serão cada vez mais precoces e precisos,
permitindo que se detecte o risco de doenças antes que
elas se manifestem. “Se a doença se instalar, poderemos
combinar a assinatura genética do distúrbio com
a do paciente e descobrir o tratamento mais adequado a seu caso”,
diz Daniel.
Graças à vacinação em massa, mais
doenças deverão ser erradicadas (como aconteceu
no passado com a poliomielite e a varíola e, atualmente,
está em processo com o sarampo). “Estão
adiantadas, por exemplo, as pesquisas da vacina contra o papiloma
vírus humano, relacionado a 98% dos casos de câncer
de colo do útero. Essa descoberta possibilitará
praticamente acabar com a doença”, diz o especialista.
Cuidar do corpo e comer bem
Haverá cada vez mais consciência da importância
de cuidar do corpo, fazer exercícios físicos e
adotar dietas saudáveis. “Caminhar, nadar e evitar
alimentos de risco será cada vez mais incorporado aos
hábitos cotidianos e não mais encarado só
como uma recomendação médica”, afirma
Miguel Malo, consultor da Organização Pan-Americana
de Saúde, braço latino da Organização
Mundial da Saúde. As práticas saudáveis
serão incentivadas pelos órgãos públicos,
com a criação de campanhas de prevenção,
como acontece hoje com a aids.
O futuro acena também com o resgate das tradições
alimentares das diversas culturas – a resposta à
globalização do fast food. “Vai-se levar
em conta o potencial de cada região produzir alimentos
mais saudáveis e baratos”, diz Miguel. Como exemplo,
ele cita a ação dos países andinos, que
incentivam a plantação de milho e quinua, cereais
que eram parte fundamental da dieta dos antigos incas.
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Espiritualidade |
Encontro do Oriente com o Ocidente
Não mais restritas a um pequeno círculo de iniciados,
as práticas e doutrinas da China, da Índia e do
Japão entraram na rotina de milhões de ocidentais,
trazendo não apenas novo alento para enfrentar estes
tempos conturbados, mas também propondo cultivar atitudes
de amor incondicional, bondade e compaixão entre todos.
As palavras de paz e tolerância do dalai-lama, autoridade
máxima do budismo tibetano, os ensinamentos de famosos
gurus indianos, como Sai Baba e Sri Sri Ravi Shankar, e práticas
corporais, como a ioga ou o tai chi chuan, encontraram ressonância
em nossa vida por mostrar como fortalecer o corpo e esvaziar
a mente das preocupações e o coração
da vaidade.
Pausa fundamental
“A contribuição essencial do Oriente para
o presente e para o futuro é estimular os momentos de
introspecção, de esvaziamento mental. Eles são
fundamentais para buscarmos dentro de nós respostas às
questões que surgem a nossa frente”, afirma Evandro
Vieira Ouriques, cientista político, terapeuta e diretor
do Centro de Estudos de Comunicação e Consciência
da Universidade Federal do Rio de Janeiro, com um vasto trabalho
na análise das relações entre política,
espiritualidade e cura.
Essa pausa nos permite, inclusive, não responder de imediato
aos estímulos externos, que nos impelem a incorporar
crenças negativas e destrutivas disseminadas como verdades
absolutas. “Como a que temos de ser frios e duros para
enfrentar o cotidiano, que a maldade faz parte da natureza humana
ou que sempre existirão guerras e conflitos”, exemplifica
Evandro.
Paz e fraternidade
O futuro nos acena também com a perspectiva de aprofundar
o diálogo inter-religioso – apesar de vivermos
hoje um momento em que as religiões parecem estar na
raiz das guerras e do terrorismo. “A constatação
de que, em essência, todas as religiões pregam
os mesmos ideais de amor, paz e fraternidade consolidará
o caminho que muita gente já está trilhando: a
descoberta de que nossa alma também é inter-religiosa
e que podemos incorporar crenças das diversas doutrinas”,
diz Evandro. “Cada um de nós fará seu próprio
caminho em direção a Deus. Não mais com
a obediência cega às leis religiosas, mas com a
possibilidade de escolher e adotar os preceitos que mais nos
tocam o coração”, finaliza.
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Retorno às origens |
A revalorização do
artesanal
Depois de décadas da valorização estética
do plástico, dos materiais sintéticos, das linhas
retas, do design clean, nos encantamos novamente com a irregularidade
de rendas e fuxicos, singelos bonecos de pano, tapetes e objetos
feitos a mão com palha, juta e retalhos de algodão.
“Essa tendência de volta às raízes
deve ser intensificada nos próximos anos e é uma
resposta natural ao processo massificante da globalização,
que passou como um rolo compressor sobre os hábitos e
costumes das diversas culturas”, explica Roberto Santos,
consultor do Programa Sebrae de Artesanato, ação
governamental que visa profissionalizar artesãos em todo
o país e preservar as tradições nativas.
“Lembramos que não somos apenas cidadãos
globais mas também frutos de nossas raízes”,
diz Roberto. Um ponto positivo desse resgate é a retomada
do orgulho de ser brasileiro, como frisa o consultor: “É
fácil constatar que estilistas, decoradores, artistas
e arquitetos vêm buscando inspiração na
riqueza e na diversidade da cultura nacional”.
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Brasil |
Modelo de cordialdade e desenvolvimento
O Brasil é o país do futuro. Nos anos 60 e 70,
durante a ditadura militar, essa máxima foi repetida
à exaustão com o intuito de fortalecer a crença
de que o crescimento econômico seria a solução
para os nossos graves problemas. Quase meio século depois,
muitos deles continuam sem solução, e essa frase
ganha novo significado. Apesar das incertezas, temos a forte
crença de que o país se mostrará um modelo
de justiça, solidariedade e respeito. E, o melhor, nos
vemos como agentes de mudança. É o que revelou
a pesquisa Brasil Brasileiro, feita pela Interscience Informação
e Tecnologia Aplicada, de São Paulo, que ouviu 2 mil
pessoas em todo o território para detectar os valores
emergentes que norteiam o comportamento da população.
Povo otimista
“Os brasileiros se orgulham de ser batalhadores e acreditam
ser os responsáveis por transformações
importantes para a própria vida. Embora sintam que sua
força ainda é insuficiente para fazer todas as
mudanças que gostariam, vêm o futuro com otimismo”,
conta Karina Milaré, diretora de planejamento da empresa
responsável pela pesquisa.
Valores como ética, honestidade, repúdio à
violência e apoio ao fim da impunidade são considerados
prioritários pelos brasileiros de todas as regiões
e camadas sociais, segundo Karina. “E, como aparecem com
mais força entre a população jovem, pode-se
deduzir seu poder de influência nos rumos do país
nas próximas gerações.” A pesquisa
mostrou também o fortalecimento do patriotismo: gente
de norte a sul acredita que o Brasil já seja um exemplo
mundial de hospitalidade, convívio social e respeito
às diferenças raciais e religiosas. “A maioria
também rejeita nossos antigos rótulos de querer
levar vantagem ou dar jeitinho em tudo”, diz Karina.
Visto de fora
Essas qualidades nacionais já são perceptíveis
no cenário mundial. “Os brasileiros têm auto-suficência
energética, terra fértil e abundante, clima ameno,
recursos minerais preciosos e está surgindo aqui um novo
modelo de desenvolvimento que une o capital econômico
ao social e ecológico”, diz a consultora de tendências
americana Hazel Henderson, que recentemente esteve em São
Paulo. Segundo ela, o país se destaca por sua capacidade
de organizar os vizinhos da América Latina baseado em
valores humanitários e sintonizados com a preservação
dos recursos naturais.
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Meio ambiente |
Todos unidos pela preservação
do planeta
“Os próximos anos trarão cada vez mais a
consciência de que precisamos colocar a mão na
massa para preservar o planeta e que não basta ficar
no discurso”, afirma o ambientalista gaúcho Vilmar
Berna, autor de 12 livros, fundador de diversas ONGs –
como o Instituto Brasileiro de Voluntários Ambientais
(IBVA), hoje com mais de 3 mil voluntários – e
premiado pela ONU em 1999. Outro ponto positivo para o futuro
é que, se há 20 anos a proteção
da natureza era um discurso restrito às ONGs, hoje a
bandeira foi incorporada pelas empresas e pelo governo. A luta
pela defesa do meio ambiente ganhou proporções
gigantescas. Uma das maiores ONGs ambientais do planeta, o WWF
– Worldwide Fund (Fundo Mundial para a Natureza), por
exemplo, está presente em quase 100 países, com
escritórios em 29 deles e 5 milhões de associados.
“Cada vez mais gente tende a se engajar efetivamente nas
questões ambientais”, conclui Vilmar.
Texto: Wilson F. D. Weigl
Ilustrações: Carlo Giovani
junho 2004
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