A beleza de uma paisagem tem o poder de nos calar. Enlevados pela visão da mata, do mar ou do horizonte aberto, não há a necessidade de dizer nada. O peito desaperta, o espírito se apazigua, e vem a sensação de estarmos totalmente vivos nesse instante. No dia-a-dia, entretanto, experimentamos a situação oposta. Engolidos por um massa de ruídos, produzidos por obras, automóveis, gente, enfim, levamos para dentro de nós a agitação externa, que se traduz em ansiedade e angústia. E a devolvemos para o exterior falando, falando e falando até mesmo sem pensar.
Esquecemos os valiosos ensinamentos contidos nos provérbios que a cultura popular cunhou para enfatizar a importância do silêncio: “falar é prata, calar é ouro”, “bom é saber calar até o tempo de falar” e até o divertido “em boca fechada não entra mosca”. São conselhos que, inadvertidamente, contrariamos o tempo todo. Mas isso é compreensível. Vivemos numa sociedade extrovertida, que valoriza as atitudes incisivas e onde tudo se fala, tudo se discute.
Segundo o taoísmo – uma grande escola dos filósofos chineses, que floresceu entre os séculos 6 e 4 a.C. –, o Universo é regido pelas energias yin e yang (a primeira remete a repouso e introspecção, e a segunda, a movimento e expansão). “Nossa sociedade é exageradamente yang, ruidosa, agitada, nervosa. Para equilibrar as energias, é fundamental silenciar, o que é yin”, afirma Wagner Canaloga, sacerdote da Sociedade Taoísta do Brasil.
Neste mundo yang, muita gente tem dificuldade de encarar a quietude. Na praia, alto-falantes a todo volume tornam inaudível o barulho das ondas, mas ninguém parece se importar. Quando todos se calam na roda de amigos, alguém sempre solta uma piada ou comentário para quebrar o gelo – e o silêncio.
Em casa, a TV fica ligada sem que ninguém assista – diz-se que isso faz companhia. Para muitos, a ausência de ruído os coloca de frente à necessidade incômoda de ter de suprir o próprio vazio.
Quando acompanhados, sentem urgência de falar, qualquer coisa que seja, como se calados deixassem expostas a falta de assunto, de diálogo, de interesses em comum. E não deveria ser assim. “A verborragia é vazia, e o silêncio, repleto de emoção e significados”, diz a fonoaudióloga Andréa Bomfim Perdigão, que entrevistou terapeutas, intelectuais e artistas para escrever um livro sobre o silêncio (leia nas páginas seguintes).
Economizar palavras nada tem a ver com a dificuldade de se comunicar ou mesmo de prestar atenção em quem está ao lado. Também não tem relação com o que não é dito e o que é escondido ou reprimido. Nem com as lacunas que podem se abrir na convivência entre casais, pais e filhos. O silêncio une e não separa, pois por meio dele também se constrói a intimidade – é gostoso quando o vínculo se estabelece com um sorriso, um olhar ou um gesto, sem necessidade de palavras. O silêncio conforta, apazigua, restaura forças. É pacífico, nunca hostil. “Contemplação, inspiração e comunhão também cabem na palavra silêncio”, lembra Andréa Perdigão.
Silenciar externamente quase sempre só é possível quando a mente serena. Piores que os ruídos externos são os internos, provocados por pensamentos desordenados. “Nosso incessante carrossel mental provoca o descontrole verbal e nos aprisionamos nesse círculo vicioso”, diz Paulo Raful, diretor do Grupo Gurdjieff São Paulo, centro de estudos baseados nos ensinamentos do mestre russo Georgii Ivanovich Gurdjieff (1877-1949). Segundo Raful, ao desacelerar a mente e melhorar a qualidade dos pensamentos, nos conectamos a nossa essência. “Aí descobrimos as emoções, os sentimentos e os valores mais caros a nós”, diz Raful.
Para alguns, essa é uma situação de risco. “Há tanta gente não acostumada a olhar para seu interior. Por isso, o silêncio angustia”, afirma Judy Souza, da Self Realization Fellowship São Paulo, uma entidade que divulga os ensinamentos do mestre iogue Paramahansa Yogananda (1893- 1952). Esse guru indiano dizia que só é possível conseguir paz de espírito quando se cria, dentro de si, um santuário de silêncio, livre de aflições, desejos e ressentimentos. “Nesse refúgio de paz, Deus lhe visitará”, foram as palavras de Yogananda.
Em geral, quem não se concede a chance de silenciar não permite que quem esteja ao lado conquiste a sua. “No vácuo que se abre com o silêncio, nascem a insegurança, a desconfiança e, com elas, a urgência de saber o que se passa na cabeça do outro”, afirma Maria Eugênia Vanzolini, professora de psicologia da Universidade de São Paulo.
Às vezes, a forma mais fácil de amenizar o ruído interior é mudar a rotina, sair de casa, viajar para um lugar tranqüilo, longe dos problemas e até das pessoas. Ir para uma praia pouco freqüentada, para a montanha, relaxar num spa ou visitar templos e mosteiros, por exemplo. Mas isso pode ter um efeito apenas paliativo ou temporário e logo se volta ao velho padrão de agitação mental e verbal.
É preciso encontrar a pacificação interna em qualquer lugar. Nesse estágio, os sentimentos afloram, e os barulhos externos já não perturbam tanto. A psicologia, as filosofias e a religiões traduzem essa experiência, cada uma a seu jeito.
Nas doutrinas orientais, a meditação diária é, em essência, um treino para silenciar a mente. “Não basta calar, pois a cabeça pode continuar fervilhando”, ressalta Candida Bastos, instrutora do centro de budismo tibetano Odsal Ling, de São Paulo. Em comunidades budistas, à noite, depois de meditar, é praticado o Nobre Silêncio, em que todos ficam sem falar até o dia seguinte. Cultivar o silêncio para buscar a paz interior aparece nos fundamentos das grandes religiões. “Buda, Moisés, Jesus Cristo e Maomé tiveram revelações divinas em momentos de introspecção”, lembra o psiquiatra Augusto Capelo.
Para quem busca mudar de padrão, pode ser uma motivação a mais participar de um retiro de silêncio, em que outras pessoas se empenham no mesmo objetivo. Em alguns encontros, fica-se sem falar durante parte do dia e, em outros, não se diz nada por dias. O cronista carioca Antonio Caetano participou de dois cursos de meditação vipassana (uma antiga técnica indiana), em que impera o silêncio total ao longo de dez dias. “Achei que não conseguiria ficar tanto tempo calado, mas logo percebi o quanto isso pode ser acolhedor. Apesar de não falar, interage-se por meio de olhares e gentilezas”, conta.
A tecelã Eleonora de Almua Perez participou de seu primeiro retiro de silêncio 12 anos atrás, na Universidade da Luz, na cidade paulista de Nazaré Paulista. Depois, acompanhou muitos outros. “Aprender a aquietar a mente e a calar mudou minha vida. Eu era agitada, vivia sem tempo. Hoje, antes de falar por falar, me pergunto se tenho realmente algo a dizer”, conclui.