DOS DIÁRIOS AOS BLOGS
Se fôssemos buscar a origem do hábito de contar os eventos da própria vida, chegaríamos à pré-história, como atestam as pinturas rupestres feitas pelo Homo sapiens para registrar cenas de seu cotidiano. Com o desenvolvimento da linguagem e das formas de comunicação, o registro de acontecimentos passou por transformações, amparados na tecnologia e na cultura de cada época. No século 16, era praxe entre os viajantes escrever diários com a descrição dos lugares por onde passavam. Já no século 19, os diários se tornaram mais comuns entre as mulheres, que os utilizavam para anotar seus sonhos, desejos e pensamentos.

Se no século 20 o hábito de escrever diários íntimos permaneceu, porém ficou mais restrito a adolescentes. Na última década, os velhos caderninhos perderam espaço para os blogs – palavra derivada de weblog, resultante da junção de web (internet) com log (diário de bordo) –, cujos autores hoje são pessoas de várias idades. Mas o que motiva alguém a contar sua vida, divulgar seus pensamentos, de uma maneira tão aberta? “É a possibilidade de ser visto, lido e conhecido pelos outros”, responde a jornalista Fabiana Komesu, que defendeu tese sobre o assunto no Instituto de Estudos da Linguagem da Unicamp. O psicólogo Waldemar Magaldi Filho vai além, ao sugerir que, em muitos casos de blogs de escritos pessoais, a atenção que o blogueiro recebe através da rede contribui para elevar a auto-estima e a sensação de ser importante. “Sem contar que a relação com o internauta-leitor pode fazer com que ele não se sinta tão sozinho”, completa o psicólogo.
Teorias comportamentais à parte, o que mobiliza muita gente a entrar na blogosfera é a chance de compartilhar informações, pensamentos e vivências. A contadora Luciana Brasil, de Belém, 33 anos, se tornou visitante habitual de blogs ao pesquisar sobre cuidados com bebês quando estava grávida do primeiro filho, em 2004. Tomou gosto pela coisa e montou sua própria página, em que conta fatos do cotidiano. “Escrevo sobre as alegrias dessa fase, mas também reclamo, sempre de forma bem-humorada, dos momentos chatos pelos quais todas as grávidas e mães que amamentam passam, mas que poucas têm coragem de admitir abertamente. Isso às vezes provoca comentários indignados de internautas que não entendem meu tom brincalhão”, conta Luciana, para quem todo blogueiro deve estar preparado para receber críticas, já que se dispõe a se expressar com tal grau de exposição.
O FIO DA MEADA
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Quando a criança deixa o abrigo, leva consigo este álbum que serve como memória dos caminhos que trilhou
Se para os adultos relembrar acontecimentos ajuda a repensar a própria trajetória e a valorizar o que foi vivido, para crianças o conhecimento e o relato de experiências contribui para que elas consolidem sua identidade e delineiem seus projetos futuros. Quando se trata de crianças carentes, essa iniciativa se torna ainda mais valorosa, como mostra o programa Fazendo Minha História, pertencente à organização não-governamental Instituto Fazendo História. Trata-se de um projeto realizado em abrigos onde moram meninos e meninas que foram separados da família. Os psicólogos do instituto treinam voluntários, que passam uma hora por semana com cada criança, lendo e comentando histórias de livros. Depois de algum tempo, é comum que os internos se mostrem à vontade para contar episódios de sua própria vida. É quando recebem um álbum, no qual irão registrar suas vivências – isso pode ser feito por meio de escrita, pinturas, desenhos, colagens e fotografias, dependendo da idade de cada um. “Ao recordar o que passaram, por que estão ali e quais são seus medos e desejos, eles entendem melhor quem são e começam a projetar o que querem do futuro”, diz Isabel Penteado, uma das coordenadoras do projeto.
Ela ressalta ainda que o vínculo que se estabelece com o voluntário permite à criança descobrir como é possível criar laços de respeito, confiança e cuidado, tornando-se exemplo para suas relações futuras. Os menores que vivem em abrigos podem voltar para suas famílias, podem ser adotados ou ficam no local até completar 18 anos. Seja qual for seu destino, sempre levam consigo o álbum em que foi narrada sua história e que serve como fio condutor de sua vida.