“Cada indivíduo tem um papel importante como agente de transformação da história.” Essa é a filosofia do Museu da Pessoa, uma entidade sem fins lucrativos que nasceu em 1991 e conta com um acervo de mais de 4 mil histórias de vida registradas em textos, áudios, fotos e vídeos. Sua criação foi tão inovadora que inspirou outros países – Canadá, Estados Unidos e Portugal – a fazerem o mesmo. “O museu hoje é um ponto de cultura, qualquer pessoa pode vir até a sede (em São Paulo) e contar sua história, que fica registrada em DVD e depois vai para o portal”, explica a historiadora Karen Worcman, fundadora e diretora do museu. Além disso, a instituição realiza pesquisas temáticas e projetos educativos para os quais entrevista diversos personagens. “Quando procura mos as pessoas para entrevistá-las, percebemos o quanto se sentem valorizadas e importantes apenas pela possibilidade de contar o que viveram. Elas têm a chance de preservar sua memória para as gerações futuras”, diz Karen.
Este ano, o Museu da Pessoa integra a campanha do Dia Internacional de Histórias de Vida, a ser celebrado pela primeira vez em 16 de maio. A iniciativa, em parceria com o Center for Digital Storytelling, organização americana que auxilia pessoas a contarem passagens significativas de sua vida através de mídias digitais, visa fazer da data um marco anual para lembrar a importância de valorizar, compartilhar, ouvir e coletar esses relatos. Mais de 80 organizações de 21 países já aderiram ao projeto, que contará com eventos em São Paulo, Cidade do México, Nova York, Toronto, Estocolmo, Cidade do Cabo e Melbourne, entre outras.
Eu tive 10 irmãos. A gente é muito unido. Isso é bem mineiro. A mesma coisa na relação de amizade. Os amigos que a gente faz aqui são amigos que a gente vê há muitos anos. Então essa combinação dos amigos e da família é uma coisa que explica muito o que a gente é.”
“Quando eu era criança, o que eu tinha mesmo vontade era de brincar de boneca. Eu não sabia que existia boneca de plástico. Então eu fazia boneca com sabugo de milho, que meu pai colhia e debulhava pro gado. Eu enrolava um retalho de pano na cintura e brincava.”
HERANÇA VALIOSA
A mãe sempre gostou de contar ao filho temporão histórias da família e lembranças de seus tempos de menina, muitas vezes acompanhadas de desenhos. Então, já adulto, ele lhe pediu que passasse para o papel essas e outras memórias, para com elas presentear sua própria filha, ainda pequena. Assim nasceu o livro Unsere Familie (Nossa Família), de autoria do casal austríaco Adelheid e Ferdinand Tomaselli. A Ferdinand, que começou a redigir o livro primeiro, coube um relato objetivo sobre suas origens italianas. Adelheid, artista plástica, completou o registro alguns anos após a morte do marido, acrescentando passagens alegres e tristes, narradas num tom mais emotivo, e cerca de 500 ilustrações, entre litografias e desenhos. Publicado em 2001, quando a autora tinha 86 anos, Unsere Familie foi editado no Brasil por sua filha mais velha, também artista plástica, que mora em Porto Alegre, para onde a mãe foge dos invernos austríacos todos os anos desde que ficou viúva. Distribuído apenas para familiares e amigos, a obra despertou reações emocionadas. “Meu filho mais moço chorou com as revelações de muitos fatos que não sabia e disse que nunca se sentiu fazendo tão parte da família como depois de ler o livro”, revela Adelheid.
Passar aos filhos a sensação de estar conectado com algo maior, que atravessa o tempo, é o que estimula a pedagoga Lise Rodembusch a fazer registros detalhados da vida de Lucas, Lucas, 7 anos, e Manuela, 3. Cada um tem dois álbuns: um com fotos de aniversários, Natais e cenas do dia-adia, como a de Lucas com o olho roxo depois do primeiro tombo, e outro, mais “autoral”, que guarda recortes e desenhos. Tudo que entra nos álbuns é escolhido pelas próprias crianças. “Para reforçar a ligação afetiva delas com os avós, que moram em outro estado, pedi que minha mãe e minha sogra também preenchessem um álbum, com fotos e textos em que cada uma conta como conheceu o vovô e como era a vida na época em que meu marido e eu éramos pequenos”, diz Lisa.