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Há mil e uma maneiras de acessar a espiritualidade
O som e a música
Presentes em todas as religiões, eles são veículos que conduzem a Deus. A espiritualidade cristã afirma que, “no princípio, era o Verbo”, a palavra criadora de Deus. Também na espiritualidade indiana, o Aum ou Om, o Som Primordial, é considerado a primeira manifestação do divino. Não se trata, é claro, do som articulado e audível, que necessita de um meio material para se propagar. Esse é apenas o quarto e último estágio do som. Aum ou Om é o primeiro. Não é a voz de Deus, mas a própria divindade em vibração.
Pela repetição dessa sílaba, o iogue sintoniza sua consciência com o divino. Por isso, quase todos os mantras começam com Aum ou Om.
O emprego do som como um veículo para estados superiores de consciência está presente em todas as tradições espirituais autênticas. O xamã antigo tinha suas canções de poder, recebidas do plano espiritual ou transmitidas pelos sons da natureza (o pio da coruja, o farfalhar do pinheiro etc.). No candomblé afrobrasileiro, cada orixá é convidado a descer ao terreiro com um toque específico do atabaque. E os padres do monte Atos, na Grécia, até hoje alcançam o transe místico sincronizando a recitação da frase Kyrie eleison (“Senhor, tende misericórdia”) com o ritmo respiratório. Procedimento semelhante é adotado por cabalistas judeus e sufis muçulmanos. Recuperando sua força original, que nossa ruidosa civilização esqueceu, a palavra evoca (lembra) e invoca (chama) a presença divina.
No divã
“Conhece-te a ti mesmo e conhecerás os mundos e os deuses.” E ssa frase foi escrita na porta do Oráculo de Delfos, na antiga Grécia. Cada vez mais parte da vida, não estranha que o tema espiritualidade esteja presente no espaço terapêutico. Podemos começar uma sessão tristes, angustiados com problemas de relacionamento – em casa ou no trabalho – e sair com algo além de alento. Além de reflexão também. “As diferentes terapias têm como objetivo colocar o indivíduo em contato consigo mesmo. Se a essência de todo ser humano é o Espírito, então, qualquer terapia que realmente se aprofunde tende a ultrapassar as camadas superficiais da psique, palcos de conflitos secundários, e levar a pessoa ao encontro de sua dimensão espiritual”, diz a terapeuta corporal Márcia Micheli, que coordena grupos de respiração holotrópica, técnica desenvolvida pelo psiquiatra tcheco Stanislav Grof e sua esposa, Christina.
O que a terapeuta nos recorda é que somos uma totalidade integrada, e não um conjunto de compartimentos estanques, como o dia-adia nos faz acreditar. Mesmo procedimentos que não tenham tal intenção podem constituir canais para a abertura espiritual.