martha Martha, mulher de verdade A escritora gaúcha já namorou, casou, teve duas filhas, se separou. Caiu, levantou e foi à luta. Com muito humor, sensibilidade e inteligência, ela se tornou porta-voz das centenas de Mercedes que existem Brasil afora. Direção de arte • Camilla Sola
Texto • Daniela Venerando
Fotos • Letícia Remião

A poeta e escritora gaúcha Martha Medeiros, 47 anos, está definitivamente rindo à toa. Autora do livro Divã (Objetiva), a história de Mercedes —uma mulher comum de meia-idade que decide fazer análise —, foi adaptada ao cinema e já ultrapassou a marca de 1 milhão de espectadores. Nada mau para quem começou a escrever poesia por hobby enquanto se dedicava à profissão de publicitária em Porto Alegre. Numa estada de oito meses no Chile para acompanhar o marido, Martha curtiu o prazer de só escrever poesia. Assim, a viagem acabou sendo um divisor de águas na sua vida. Ao voltar à cidade natal, decidiu apostar em sua verdadeira vocação. Abandonou a carreira de 13 anos em publicidade e começou a publicar crônicas no jornal Zero Hora, de Porto Alegre, e mais tarde em O Globo, do Rio de Janeiro. A partir daí sua carreira literária deslanchou. Ao todo, são mais de 18 livros em 24 anos de profissão. Seus textos logo criam empatia ao trazer certa ironia e o prazer de descobrir a si mesmo. Atualmente separada e mãe de duas filhas, de 13 e 17 anos, a escritora conta neste bate-papo por que o público se identificou tão rapidamente com Mercedes e como está aberta a oportunidades que a vida lhe traz.

BF O filme começa mostrando Mercedes na primeira sessão de análise. Ao longo de três anos, a personagem muda o curso de sua vida. Você acha que a análise pode ser uma boa ferramenta de transformação?
MM No caso da Mercedes, já havia o desejo de dar uma guinada na vida monocórdia — só faltava um álibi. Ela precisava ouvir a própria voz e aprender a acreditar nos próprios pensamentos. A terapia afasta a dramatização excessiva, liberta das culpas e nos ajuda a gostar do que somos. Nem sempre isso leva a transformações grandiosas, mas se servir para dormirmos melhor já vale e muito.

BF Você fez ou faz terapia?
MM Nunca fui analisada para valer, mas mantenho uma relação pouco ortodoxa com um psiquiatra. Brinco que ele é uma espécie de plantonista que está à disposição para problemas específicos. Mesmo assim, meu interesse pela psicanálise é total. Se eu não fosse escritora, trabalharia com algo relacionado ao tema. Acho esse um universo magnético, mas sou totalmente leiga — apenas leio a respeito.

BF Mercedes é uma mulher bastante comum. Por isso a identificação com o público?
MM Sim, a maioria das mulheres já passou por situações bem semelhantes às que pontuam a vida da personagem. Seja um casamento em que restou somente a amizade, uma paixão clandestina, seja uma separação que esvazia nossas certezas, enfim, fatos corriqueiros. Se ela é moderna? É sim, mas só porque tem coragem de se investigar e de promover as mudanças que esse autoconhecimento provoca. E também porque tem humor, mesmo na adversidade, e isso é uma qualidade muito contemporânea.

BF Na sua busca pelo autoconhecimento, você já se conhece?
MM Imagina! Esse processo dura o resto da vida. A cada dia eu me conheço um pouquinho mais. A gente pensa que vai reagir de uma forma e acontece o contrário — a surpresa nos ensina muito sobre quem somos. Arte, livros, filmes e até a conversa com uma amiga também ajudam nessa busca. Estamos sempre nos conhecendo e desconhecendo. O importante é tentar se livrar daquilo que faz mal.

BF A personagem traz um pouco de suas próprias experiências?
MM A Mercedes do livro sou eu, um pouco mais cômica. Na personagem coloquei meus pensamentos e sentimentos. Adicionei a isso experiências que ainda não tive, pois queria abordar alguns assuntos como a morte. Na ver- Mundo feminino dade, o livro é um desabafo e não trata só das relações amorosas, mas da relação da mulher com a própria feminilidade, da maternidade, da ligação com Deus. Fala das diferenças e semelhanças entre lucidez e loucura, da transitoriedade de tudo.

BF Assim como a Mercedes, você também se separou do marido?
MM O livro acabou sendo profético em muitos aspectos. Um deles foi o fim do meu casamento cinco anos mais tarde. E, a exemplo da personagem, a separação foi tranquila e hoje somos superamigos. Na época, eu já devia estar com alguns questionamentos a respeito aparentemente escondidos. Atualmente eu tenho um namorado, mas cada um vive na sua casa.



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