martha Martha, mulher de verdade A escritora gaúcha já namorou, casou, teve duas filhas, se separou. Caiu, levantou e foi à luta. Com muito humor, sensibilidade e inteligência, ela se tornou porta-voz das centenas de Mercedes que existem Brasil afora. Direção de arte • Camilla Sola
Texto • Daniela Venerando
Fotos • Letícia Remião

BF No livro, você diz que estava com medo de ser feliz para sempre. Aparentemente a vida estava perfeita, mas faltava algo?
MM Eu estava com medo de ser a mesma pessoa para sempre. O script da felicidade já estava cumprido: casamento, filhos e carreira. Só que, hoje, quando chegamos à meia-idade com todas essas conquistas, descobrimos que ainda há uma parte 2 da nossa história a ser escrita. E nos perguntamos se, diante de tantos novos caminhos, a parte 2 precisa ser igual à parte 1. Exemplo disso é a Marilia Gabriela, que é pura vitalidade: está linda, saudável, namora, atua como atriz e continua uma jornalista brilhante. São tantas as oportunidades... Mercedes, por exemplo, mais perde do que ganha na história e não há happy end convencional. Mas acho o final extremamente otimista, apontando para uma estrada aberta onde tudo ainda pode acontecer.

caneteiro

A casa da autora reflete seu amor pelos livros, pelas lembranças das pessoas queridas e por objetos cheios de bossa.



BF Para encontrar a felicidade, é preciso perder o medo e se arriscar?
MM Sim. Felicidade é saber que na vida as perdas são inevitáveis e que não devem nos paralisar. Vai lá, perde, levanta, tenta de novo — são essas as regras do jogo. Temos que aprender que esse mundo não é um conto de fadas. Hoje está tudo bem, amanhã nem tanto, e segue o baile. Por isso o humor é imprescindível. Sem ele, a gente cai e não levanta mais.

BF Você acha que dá para aprender a ter bom humor?
MM Gostaria de dizer que sim. Talvez o humor venha do instinto de sobrevivência. É um estalo pessoal.

BF Em suas crônicas, você fala com propriedade dos dilemas da mulher atual. Como lidar com isso? Rindo de si mesma?
MM Não acho que os homens estejam em situação melhor do que as mulheres. Todos nós estamos nos cobrando, procurando por um modelo de felicidade totalmente irreal. A vida é corrida, esquizofrênica, assim mesmo. Mas também oferece alegrias e surpresas — tudo nos é servido em pequenas doses, mas queremos o êxtase. Temos que colocar nossas expectativas num patamar mais realista. Aí, sim, a vida flui.

porta-retrato

“O humor é essencial. Sem ele, a gente cai e não levanta mais.”



BF Qual é a saída para os múltiplos papéis da mulher de hoje?
MM Uma rotina em que nos cabem várias funções é a realidade, e assim deve ser encarada. Ou queremos voltar a ser Amélias? Se assim for, é possível rebobinar a fita e não faltará homem provedor num país que ainda é machista. Mas duvido que uma mulher que tenha experimentado a independência queira voltar a ser manteúda. Ninguém disse que seria fácil. Nem que tenhamos de ser perfeitas, exigência muito mais nossa do que da vida. Quer ficar 12 horas no escritório? Quem mandou ser tão competitiva! Eu, por exemplo, não abro mão de um cinema com as amigas. Todo mundo pode escolher e qualquer escolha tem um preço. A pergunta é: o que a gente quer?



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