Banqueteira da alma
Ser mulher é ter fome de muitas coisas: de afeto, de cumplicidade, de tempo livre e, claro, de um bom prato de comida. Assim pensa a cientista social Carla Cristina Garcia, estudiosa de temas que rondam o universo feminino. Nesta entrevista, ela nos convoca a reencontrar o prazer de degustar a vida.
Direção de arte • Camilla Sola
Texto • Raphaela de Campos Mello
Fotos • Lucia Loeb
Carla Cristina Garcia é daquelas mulheres que esbanjam vitalidade. Os olhos vivos e pintados, somados ao sorriso largo e facilmente acionado, causam empatia imediata. Mestre e doutora em Ciências Sociais pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP), onde é professora e pesquisadora, e pósdoutora pelo Instituto José Maria Mora, no México, ela se dedica desde a graduação a temas relacionados ao universo feminino. “O papel fundamental da sociologia e da antropologia é dar voz a quem não é ouvido na sociedade”, justifica.
Primeiro, Carla quis entender o que tirava as mulheres de suas casas rumo a internações em manicômios a partir da Idade Média. “Qualquer mulher que tenha um pensamento alternativo ou que queira ter uma vida diferente daquela ‘autorizada’ pela sociedade é considerada louca, bruxa ou detentora de algum problema”, constatou ela na pesquisa que deu origem ao livro Ovelhas na Névoa – Um Estudo sobre as Mulheres e a Loucura (Rosa dos Tempos).
O interesse pela história que se desenrola na surdina, ou seja, bem longe dos livros oficiais, levou-a a conhecer também as moradoras mais antigas da região do ABC Paulista – participantes da revolução industrial na virada do século 19 para o 20. “Elas tinham triplas jornadas. Era uma vida de muto trabalho nas fábricas e olarias. Ao mesmo tempo, conservavam a família e as tradições das terras de onde vieram”, destaca. Uma saga heroica contada em seu livro As Outras Vozes – Memórias Femininas em São Caetano do Sul (Hucitec).
Depois de entrar em tantas casas e sempre ser recebida pelas senhoras com bolos, tortas e rosquinhas, Carla foi tomada pela vontade de compreender a importância simbólica e afetiva do alimento na vida das mulheres. Vasculhando antigos cadernos de receitas, descobriu que a cozinha é, por excelência, um reduto do amor, da criatividade e da construção da memória por meio de passagens que entrelaçam o público e o privado. “Não há uma única rosquinha que não conte uma história”, garante ela. Nesta entrevista, a pesquisadora convoca as mulheres a saciarem a fome do corpo e da alma, redescobrindo a alegria de comer – sem culpa – e de compartilhar o pão, seja ele uma deliciosa receita, uma conversa vagarosa, como a das comadres de outrora, ou qualquer outro alimento que nos faça feliz.
BF De onde vem a força feminina para dar conta de mil e um papéis na sociedade contemporânea?
CCG Essa força é ancestral, nos remete aos tempos primordiais em que as mulheres aliavam a intuição à experiência do mundo concreto. No caso, a coleta de alimentos e, posteriormente, a agricultura. Elas conheciam o poder da terra, das sementes e dos alimentos. Compreendiam e respeitavam os ciclos da natureza, sabiam o que era bom e o que não era para a saúde, eram responsáveis pelo preparo da comida e, portanto, pela subsistência das comunidades. Apesar de ainda conservarmos essa força dentro de nós, muitas mulheres se desconectaram dela a partir da modernidade. Daí terem sido alvo de doenças mentais como a histeria, no século 19, e sofrerem de anorexia e depressão no século 20 e 21. No entanto, podemos recuperar esse poder relembrando e valorizando o legado das mulheres do passado, não apenas aquelas que se destacaram na história, mas também nossas familiares.
BF Por que você pesquisa a relação entre as mulheres e a comida?
CCG Entrevistei mulheres internadas em manicômios, logo, destituídas de função produtiva como trabalhadoras e de função familiar, já que não são esposas de ninguém, bem como senhoras idosas, que perderam o papel primordial da procriação, ou seja, mulheres para as quais ninguém olha. Mesmo assim, elas estão vivas e dão risada. Minha intenção não era apontar a vitimização, e sim compreender por que nos mantemos conectadas com a vida. Queria descobrir onde está o poder feminino, muitas vezes subestimado pela sociedade e por nós mesmas. Foi aí que descobri a importância da comida.