flor Poesia na favela A poesia se tornou o cartão de visita da chácara santana, bairro da zona sul de são paulo. a quem interessar, esse é o endereço do sarau da cooperifa, tribo afinada com a força transformadora do verbo. Direção de arte • Camilla Sola
Texto • Raphaela de Campos Mello
Fotos • Guto Seixas
Reportagem fotográfica • Henrique Morais

Povo lindo, povo inteligente.” Com esse bordão, o poeta Sérgio Vaz se dirige à plateia reunida no bar do Zé Batidão, na periferia de São Paulo. Inquieto e espontâneo, ele é o idealizador da Cooperativa Cultural da Periferia (Cooperifa), que completa 8 anos este mês. Fruto do turbilhão criativo que o habita e, sobretudo, da ajuda de amigos e de colaboradores, a iniciativa tem um nobre objetivo: “Comungar a cidadania através da literatura e da palavra”, como define Sérgio. O pilar central da iniciativa é o sarau que acontece todas as quartas-feiras no bar mais animado do bairro. “Pode chover, ter enchente, jogo do Brasil contra a Argentina, e assim por diante”, brinca o agitador cultural, que ironicamente assina como Vira-Lata da Literatura. Um homem apaixonado pela palavra e pela periferia, seu berço e sua musa inspiradora. “Sou um poeta que ama sua comunidade. Nada mais”, dispara. Cada encontro atrai Atitude uma média de 250 pessoas. Emocionados e concentrados, às vezes espremidos, os poetas e frequentadores mostram que chegou a hora de desfazer a crença de que nas áreas mais afastadas dos centros das grandes cidades não há produção cultural, e sim somente pobreza e violência.

Saliva e sola de sapato
Antes de alcançar meta tão gratificante, Sérgio realizou de tudo um pouco. Trabalhou como auxiliar de escritório, vendedor de videogame, comerciante e assessor parlamentar. Na juventude, se aproximou das canções populares carregadas de inconformismo e contestação, sentimentos que ele conhecia tão bem e o influenciam até os dias de hoje. “Foi como se um raio tivesse caído em minha cabeça e aberto um buraco do tamanho do mundo”, escreveu no livro Cooperifa – Antropofagia Periférica (Aeroplano), obra que conta a trajetória da organização. Em nome da bandeira poética, ele protagonizou também passagens inusitadas, como o episódio batizado de Mendigagem Cultural. Imagine a cena. Vestido com farrapos, o poeta participou clandestinamente da Bienal do Livro, no início dos anos 90, com o intuito de promover seu trabalho. Os exemplares, depositados dentro de um saco de estopa, estavam à venda, o que instigou a curiosidade do público e a desconfiança dos seguranças do evento. Uma mistura de protesto e senso de oportunidade. Assim, batendo em portas de cinema, teatro, shows e livrarias para vender suas obras (ele já possui cinco títulos publicados) ou apenas para distribuir gratuitamente cartões-postais e marcadores de livros contendo trechos de seus poemas, Sérgio abriu caminho no mundo das letras. Mas o acolhimento definitivo partiu dos membros da própria comunidade. Às voltas com a ideia de criar um sarau, mas sem teto para receber as pessoas, o poeta contou com a generosa oferta de Zé Batidão, dono do bar que, curiosamente, um dia pertenceu ao pai de Sérgio e onde ele trabalhou por toda a adolescência.





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